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(Conto premiado com terceiro lugar pela Sec. de Cultura do Est. do Paraná – Concurso Newton Sampaio) Editado em Antologia de mesmo nome. Ano 2006

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 AS BOTAS DE CHICO CELESTINO

 

Eram um par. No mínimo dois tamanhos menor do que por direito lhe servia nos pés. Chico Celestino, mais os dele, viviam lá nos cafundós. Mais ou menos onde o Judas perdeu as botas dele. O que não era bem o caso de Chico… Para este perder as suas, seria coisa impossível. Uma vez calçadas, difícil mesmo era tirá-las, e também suportá-las, nas primeiras horas. Depois de algum tempo o couro pegava-se tão intimamente à carne, que deixava de sentí-las, ou sentir os próprios pés.

Por toda a vida, Chico Celestino, se lembraria em detalhes do dia que lhe veio o primeiro par de botas. Naquele tempo, e naqueles confins, botas não era coisa pra se comprar em armazém e conquistar um par, só para alguns. Chico, completava doze anos. Era tradição das famílias mais abastadas, presentear aos filhos com o primeiro par de calçados, por ocasião deste aniversário. É claro! Se fosse um bom filho, obediente e trabalhador. Quanto mais aplicado fosse o jovem, mais satisfação teriam os pais em dar-lhe seu primeiro e maior bem. Chico, o menino Chico, não chegava a se destacar. Não era o primogênito, nem o caçula, estava no meio de onze irmãos. Contudo, sua vez chegou.

O Senhor Frederico procurou um sapateiro e fez a encomenda: Um par de botas para o filho de doze anos. A encomenda demorou muito para ficar pronta. Mas o menino Chico, muito embóra admirasse os mais velhos, com tal luxo nos pés, não se arreliava. Acostumado a pisar chão batido, lama e pedra, sem falar nas geadas das manhãs de inverno, ia levando sua vida de menino e se contando feliz por ter um par de pés, que o levavam para onde bem desejasse ir.

Numa tarde, como as de agora, o pai chegou do Vilarejo. Veio ele mesmo, pisando firme, com suas botas gastas, mas bem lustradas. Nas compras que trouxera, um par de botas, novinho em folha. Digo:  Um par de botina, de couro crú, costuradas à mão, com dois enormes cadarços amarrados atando um pé ao outro. Quando Chico botou os olhos nelas, soube que  seriam  suas. Era o único na casa em idade de ganhá-las.

Seu Frederico mostrou mais uma vez aquele severidade natural de pai. Ensinou os cuidados que se deve ter com as coisas, os bens materiais, duros de possuir. Chamou o menino e instruiu-o: Não deveriam as botas serem deixadas na chuva, para não deformarem. Uma vez embarreadas… (elameadas),  imediatamente limpas. E, principalmente,  com frequência, engraxadas com sêbo de boi.

Ao deparar-se frente a frente com seu primeiro par de botas, o menino Chico ficou meio embaralhado. Por um lado, orgulhoso. O pai notara que já se tornava um homem. Não seria mais o menino Chico. Mas, Chico. Por outro lado, sabia da responsabilidade de se calçar botas. Teria de ser homem, agir como homem. Não poderia mais ser pego chorando, nem correr para a mãe, esconder-se das encrencas. O pai alcansou-lhe as botas. O momento era solene. apanhou-as. Deu uma boa olhada. Pensou e julgou que fazia a coisa certa: Pendurou o par de botas pelo cadarço, num prego fincado na parede à sua frente, qual fosse um troféu… Tremia só de olhar para elas.

_ Calce as botas! Chico meu filho!

Amofinou-se completamente. Fez rodeios, mas era ordem do pai. Na vasilha com água lavou os pés, e mais rodeios… O pai esperava. Decidiu-se. Desatou os cordões. O couro seco, rijo. O solado tão duro quanto as pedras que costumava topar. Não seria difícil! Estava acostumado à dureza. Tentou enfiar um dos pés, não entrava. O pai olhando… Parecia desapontado:

_ Force um pouco mais!

Forçou. De cá, de lá, e nada. Não havia meios… Resolveu tentar o outro pé, que reparando bem, parecia um pouco menor. Ufa!!! Mirou na direção da mãe. Aqueles vestidos enormes, folgados, quase arrastando ao chão. Bem podia enfiar-se debaixo deles e nunca mais sair de lá. Reparou que também ela, a mãe, estava ansiosa, esperando pra ver o seu filho Chico dar os primeiros passos, usando calçado nos pés. Estava por demais orgulhosa dele… Curvou-se e prosseguiu. Sentiu uma quentura na cabeça, o suor correu frio… Ou seriam lágrimas? Era suor. Os outros irmãos reuniram-se à volta. quase pediu ajuda ao irmão mais velho. Mas pensou:  Um homem deve ser capaz de calçar sozinho as próprias botas. Esforço concentrado e um insentivo:

_ Com tempo você acostuma! disse um dos irmãos.

Os pés já estavam ardendo, o rosto enrrubecido. Enfim,  um dos pés acomodou-se dentro da forma. Se um entrou,  o outro também entraria. Reuniu todas as forças que tinha. Empurrou com tudo, de uma só vez. Sorriu… Realizou a maior proeza  de sua vida: Colocar os dois pés dentro de botas. Era de fato! Um homem agora. Sentia-se, um. Amarrou fixamente os cordões, olhou para o pai, a mãe, os irmãos: todos contentes. Pôs-se em pé, esticou bem o esqueleto  e saiu afoito. Correu lá fora, apanhou um feixe de lenha, trouxe e depositou-o junto ao fogão. Tornou a sair, desatrelou os cavalos, deu-lhes de beber e soltou-os no pasto. vinha andando apressado, pisando miúdo, o suor correndo da fronte… Ou, seriam lágrimas? Era suor.

_ Vejam! como está feliz, o menino Chico…

_ Não o chame, menino! É um homem, agora.

Uma vizinha, Dona Eulalia, chegou para a costumeira visita de fim de tarde. A primeira coisa que viu foi as botas de Chico:

_ Vejo que ganhou suas primeiras botas, heim! Chico!? Que tar você!  Mas, que tar!!!

O pobre Chico também não conseguia pensar noutra coisa. A pressão das botas sobre os ossos, sobre a carne, latejava, dando rítimo às pulsações do cérebro: Botas! Botas! Botas!

Chegou a hora de se recolher, descansar o corpo da lida. Junto à cama, pôs-se a pensar: Tirando as botas teria alívio, mas provavelmente, não lhe entrassem, na manhã seguinte. Devagarinho recostou-se na cama, deixou os dois pés suspensos. Na mente as pancadas: Botas! Botas! Botas… O sono chegou infalível.

Na manhã seguinte os comentários, zombarias:

_ Chico dormiu com as botas! Ah! Ah! Ah!

_ Gostou tanto delas, que nem pra dormir as tirou.

Chico estava todo suspenso, já não conseguia raciocinar direito. Tudo o mais deixou de existir, de ter importância. Seus pés tornaram-se todo seu corpo agora. Tudo o que realmente importava. A dor tanta que não parecia ter outros membros além destes e estes, também não pareciam seus. Pensava-os enormes, inchados, do tamanho do mundo. Intrigado, mas retraído nada dizia, limitava-se a pensar: Isto é o que chamam de ser homem! Ser capaz de suprtar as próprias botas! Olhava para os mais velhos e via-os satisfeitos, contando causos. Notou que os homens quando sentados, costumavam bater com os pés no chão, fazendo um barulho ritimado, como batuque. Em silencio concluía que assim agiam para disfarçar a dor que sentiam.

Como dissera o irmão, aos poucos foi acostumando-se. Durante o dia parecia amortecido. Difícil mesmo era de manhã, nas primeiras horas, até que o couro se aquecesse e se pegasse à pele, ao ponto de tornarem-se um. Isto lhe dobrava os ânimos, andava inquieto, trabalhando, agitando-se, até que se lhe consumissem os sentidos. Desconfiada, ou talvez por aquele instinto de mãe, Dona Elzira deixou escapulir, assim sem querer, que para dores ou calo nos pés, a salmoura em água morna era um tapa. Na mesma noite, depois que os outros dormiram, Chico levantou secretamente e pôs-se a demolhar os pés. Repetira a receita por dezenas de noites seguidas, até sentir que pisava em núvens. As botas repousavam ao lado da cama. Virava-se de costas, tentando ignorá-las e não pensar no dia seguinte, então adormecia, como menino, outra vez.

 Os tempos foram passando. De tanto engraxar as botas com sêbo de boi, o couro laceou (cedeu). Um ano depois,  gastaram, descosturaram-se. Assim chegava ao fim seu primeiro par de botas. Infelizmente, veio-lhe outro par, novo.  Seu Frederico errou novamente a numeração. E, embóra já não dissessem:

_ Oh! O Chico ganhou botas! Diziam:

_ Oh! O Chico ganhou botas novas…

_  Que tar! Que tar!

E, no cérebro: Botas novas! Botas novas! Botas novas!

Pensou em reclamar antes de usá-las pela primeira vez, porém, demonstrar qualquer tipo de insatisfação seria grave ofensa ao pai. Que em represália, poderia suspender por alguns anos o uso de botas pelo filho. E se, conquistar o primeiro par de botas era uma honra, perdê-las depois de tê-las tido, desonra de igual tamanho. Fazer o que? Chico olhou para o novo par de botas, depois para a mãe, para os irmãos; todos contentes, orgulhosos dele. Resignou-se. Afinal, já conhecia o bastante sobre botas, suportara da outra vez, suportaria também desta. Valeria-se das salmouras e teria belas noites, sem elas. Assim foi.

Com o passar dos anos, chegou a vez de ele mesmo encomendar suas botas: O sapateiro deu-lhe um par para prova. Entraram fácil.

_ Não! estas não me servem. Estão grandes!

_ Eu discordo! Não estão grandes. São do seu tamanho.

O homem chegou mais perto, verificou. Não havia sobra mínima, nem na ponta dos dedos. Chico insistiu:

_ Quero um número menor. Estas estão grandes! Nem posso sentí-las!

_ Tudo bem! O Senhor é quem manda. Mas afirmo: Estas são do tamanho certo, um número menor vai apertar.

_ Não faz mal! Já estou acostumado a sentir minhas botas nos pés. 

Assim foi por toda vida.

Chico Celestino sempre usou botas de couro crú costuradas à mão. De vez em quando, à noite demolhava os pés em água morna e salmoura. Nunca se queixou. “Um homem deve ser capaz de suportar as dores de suas próprias botas”. Não se podia deixar de notar a estreita relação de Chico Celestino e o referido utensílio. Desenvolvera a mania de movimentar os pés e bater com eles no chão, no assoalho de madeira, num batuque ritimado e frenético. Jamais era visto sem elas. Pela manhã ficava sempre agitado, parecia tomado de uma inexplicável euforia. Andava de um lado a outro. cuidava dos animais, revisava as ferramentas de trabalho no campo. Suava frio… Limpava o suor na manga da camisa… Ou, seriam lagrimas? era suor. Às vezes parecia mesmo fora de si, quase se podia ouvì-lo murmurar: Botas! Botas! Botas!

Seu Chico Celestino Tornou-se um homem respeitável. Criou muitos filhos e viu crescerem os netos. Foram gastos, muitos pares de botas. Enfim, numa certa manhã. Não foi capaz de calçá-las. Soube então que deveria deixar de viver. Não se levantou naquele dia. Nos outros também não. Seu último par de botas esperava ao lado da cama. Meses depois, Chico Celestino veio a falecer.

Chamaram dois conhecidos para banhar, vestir e calçar o defunto. As botas foram polidas como nunca igual. Isto para combinarem com o terno, único que usaria na vida, ou melhor, depois dela. A confusão se formou quando tentaram calçar-lhe as botas. Chegaram a fazer promessa, rezas e simpatias. De nada valeu. Atónitos diziam:

_ Os pés do defunto devem ter inchado!  Só Pode!? Nem por milagre as botas lhes entram…

Envergonhados os parentes justificavam o acontecido a cada um que chegasse:

_ As botas não lhe entram! Teremos de enterrá-lo descalço…

_ Ara! Dá uma dó! Justo agora que vestiu terno…

Uns, da famíla, não se conformavam:

_ É uma vergonha! Um homem tão distinto e bom, partir para a outra vida assim, descalço!

_ Que  havera de se fazer?!

Amarraram então as botas reluzentes, uma  à  outra, pelo cadarço  e meteram-nas dentro do caixão, ao lado dos pés. Se ele delas precisasse, do outro lado, tendo-as consigo, ele mesmo trataria de calçá-las.

Quando Chico Celestino acordou do outro lado, olhou para seu velho par de botas. Apanhou as e saiu correndo, descalço. Pendurou-as na primeira estrela que encontrou na parede do céu, e ficou a contemplá-las, qual fosse um troféu. Depois desembestou céu a fora… Não precisaria mais de botas, nunca mais! Pois no céu, Chico Celestino se tornou Chico Celeste. E como no céu o tempo não passa, Chico pra sempre seria menino.

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Posted 31 de Março de 2010 by clara-mei

4 responses to “CONTOS

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  1. Que espetacular texto,Clara-Mei.Voce mostra,como Exupéry,”que o essencial é invisivel aos olhos”.Muito bom,mesmo.beijos, e, saudades.

  2. Obrigada! Querido Cezar. Textos assim um tanto mais longo, demandam tempo para serem apreciados. Mesmo assim o fizestes.
    Muito! Muitíssimo obrigada!

  3. Menina, eu te disse que queria ver o fim,vi, me emocionei. Foi diferente do que eu poderia imaginar. Nossos heróis não morrem, com certeza Chico Celestino vive.
    Parabéns!!!
    O dom de trabalhar as palavras, coloca-las em ordem, vira arte e a arte faz as pessoas especiais.Voce é.
    Beijos

  4. Belíssimo conto. As palavras, as ideias e conceitos foram primorosamente dispostos de forma a nos tocar a alma.

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